Reflexão para o mês de Março

Março

Génesis 22,1-18: Perder para ganhar
Deus pôs Abraão à prova e chamou-o: «Abraão!» Ele respondeu: «Aqui estou.» Deus disse: «Pega no teu filho, no teu único filho, a quem tanto amas, Isaac, e vai à região de Moriá, onde o oferecerás em holocausto, num dos montes que Eu te indicar.»
No dia seguinte de manhã, Abraão aparelhou o jumento, tomou consigo dois servos e o seu filho Isaac, partiu lenha para o holocausto e pôs-se a caminho para o lugar que Deus lhe tinha indicado. Ao terceiro dia, erguendo os olhos, viu à distância aquele lugar. Disse então aos servos: «Ficai aqui com o jumento; eu e o menino vamos até além, para adorarmos; depois, voltaremos para junto de vós.»
Abraão apanhou a lenha destinada ao holocausto, entregou-a ao seu filho Isaac e, levando na mão o fogo e o cutelo, seguiram os dois juntos. Isaac disse a Abraão, seu pai: «Meu pai!» E ele respondeu: «Que queres, meu filho?» Isaac prosseguiu: «Levamos fogo e lenha, mas onde está a vítima para o holocausto?» Abraão respondeu: «Deus proverá quanto à vítima para o holocausto, meu filho.» E os dois prosseguiram juntos.

Chegados ao sítio que Deus indicara, Abraão construiu um altar, dispôs a lenha, atou Isaac, seu filho, e colocou-o sobre o altar, por cima da lenha. Depois, estendendo a mão, agarrou no cutelo, para degolar o filho. Mas o mensageiro do Senhor gritou-lhe do céu: «Abraão! Abraão!» Ele respondeu: «Aqui estou.» O mensageiro disse: «Não levantes a tua mão sobre o menino e não lhe faças mal algum, porque sei agora que, na verdade, temes a Deus, visto não me teres recusado o teu único filho.»
Erguendo Abraão os olhos, viu então um carneiro preso pelos chifres a um silvado. Foi buscá-lo e ofereceu-o em holocausto, em substituição do seu filho. Abraão chamou a este lugar: «O Senhor providenciará»; e dele ainda hoje se diz: «Na montanha, o Senhor providenciará.»
O mensageiro do Senhor chamou Abraão do céu, pela segunda vez, e disse-lhe: «Juro por mim mesmo, declara o Senhor, que, por teres procedido dessa forma e por não me teres recusado o teu filho, o teu único filho, abençoar-te-ei e multiplicarei a tua descendência
como as estrelas do céu e como a areia das praias do mar. Os teus descendentes apoderar-se-ão das cidades dos seus inimigos. E todas as nações da Terra se sentirão abençoadas na tua descendência, porque obedeceste à minha voz.» (Génesis 22, 1-18)

Será que Deus pede sacrifícios humanos? Porque é que um texto de um tom tão arcaico está presente na Bíblia? «Pôr à prova» uma pessoa é, segundo a Bíblia, conhecê-la melhor, fazê-la aceder à sua verdadeira identidade (ver Deuteronómio 8,2). Então, em que consiste a provação de Abraão? Deus diz textualmente: «Pega no teu filho e oferece-o num holocausto». Quererá Ele dizer: oferece o teu filho único em sacrifício (como à primeira vista Abraão pensa compreender)? Ou antes: oferecei, tu e o teu filho, um sacrifício (talvez o que, no seu íntimo, esperasse Abraão, por dizer aos outros servos «voltaremos para junto de vós»)?
Se por um lado é necessário entender o «oferecer» no sentido mais evidente, de oferecer em sacrifício, a provação visa bem mais que a vida de Isaac. Deve Abraão renunciar à promessa de Deus, ligada ao milagre do nascimento do seu filho em idade já avançada, milagre anunciado pelos três anjos em Génesis 18? Deus parece querer destruir o que lentamente construiu. Dádiva e provação aparecem na Bíblia frequentemente associadas. Toda a dádiva constitui em si mesma uma provação: a pessoa que o recebe vai apropriar-se do dom como se de um dever se tratasse ou vai mais além, descobrir aquele que o oferece?
Abraão passa a provação. Deus diz-lhe: «tu não me recusaste…», ou de outro modo: tu não agarraste o dom para o guardares egoistamente. Deus vê, na verdade, a fé de Abraão que procurou a vontade de Deus mesmo num momento de trevas. «O Senhor vê» é a etimologia do nome da montanha onde se encontram o pai e o filho: «Moriah». Mas o narrador acrescenta também que o Senhor é visto. Neste lugar simbólico, o encontro entre Abraão e o seu Deus tornar-se reconhecimento recíproco.
No entanto, em vez do filho, representado pelo «cordeiro» na pergunta de Isaac (v.7), é o «carneiro», a imagem do pai, que é sacrificada. Mesmo se não imolou o filho, Abraão sacrifica a sua paternidade no sentido de possuir o filho da promessa. Abraão não possui mais o seu filho (o nome de Isaac não é mais mencionado), mas ele viu a Deus e foi visto através dele em verdade. O que recebe agora é a promessa de Deus, tornada novamente possível: «E todas as nações da Terra se sentirão abençoadas».
Não haverá neste texto o mistério de toda a paternidade e maternidade: aceitar desprender-se dos próprios filhos para os lançar na vida? Mesmo Deus toma misteriosamente o lugar de Abraão ao «não poupar o seu único Filho» da cruz (João 3,16; Romanos 8,32). Nesta «perda», ganha-se a vida.
- Já fui conduzido, pela fé, a dar um passo que me tenha custado?
- Há situações em que eu sinta que deva perder para ganhar?

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