Reflexão para Setembro

Setembro

Génesis 11, 1-9: Uma unidade ilusória
Em toda a Terra, havia somente uma língua, e empregavam-se as mesmas palavras. Emigrando do oriente, os homens encontraram uma planície na terra de Chinear e nela se fixaram. Disseram uns para os outros: «Vamos fazer tijolos, e cozamo-los ao fogo.» Utilizaram o tijolo em vez da pedra, e o betume serviu-lhes de argamassa. Depois disseram: «Vamos construir uma cidade e uma torre, cujo cimo atinja os céus. Assim, havemos de tornar-nos famosos para evitar que nos dispersemos por toda a superfície da Terra.» O Senhor, porém, desceu, a fim de ver a cidade e a torre que os homens estavam a edificar. E o Senhor disse: «Eles constituem apenas um povo e falam uma única língua. Se principiaram desta maneira, coisa nenhuma os impedirá, de futuro, de realizarem todos os seus projectos. Vamos, pois, descer e confundir de tal modo a linguagem deles que não consigam compreender-se uns aos outros.» E o Senhor dispersou-os dali por toda a superfície da Terra, e suspenderam a construção da cidade. Por isso, lhe foi dado o nome de Babel, visto ter sido lá que o Senhor confundiu a linguagem de todos os habitantes da Terra, e foi também dali que o Senhor os dispersou por toda a Terra. (Génesis 11,1-9)
O nosso relato começa com um progresso técnico: os homens aprendem a fabricar tijolos. E põem imediatamente em prática esta nova técnica para reforçar a sua unidade e a sua autonomia. No livro do Génesis, uma cidade é um lugar que oferece protecção atrás de muros quando já não se vive em harmonia com «toda a Terra» (ver Génesis 4,17). E a construção de uma torre «cujo cimo atinja os céus», à imagem das grandes montanhas onde o homem encontra a divindade, é um acto desmesurado em que o homem se toma, a ele mesmo, pela Fonte.
Nestas condições, a unidade está, logo à partida, desvirtuada. É significativo o facto de esta ser expressa em termos negativos: «… para evitar que nos dispersemos». Prefere-se ser forte e em bloco, numa atitude de oposição ao que está do lado de fora, em vez de se realizar a vocação de acolher e de comunicar a bênção divina: «Crescei e multiplicai-vos, enchei e dominai a terra.» (Génesis 1,28) Note-se que o relato não apresenta motivos positivos para esta atitude de auto-defesa: é como se, à falta de reais inimigos, os seres humanos tivessem necessidade de inventar inimigos imaginários para reforçar a sua identidade «contra alguém».
É então que Deus entra na história, primeiro como simples observador. Ele constata que uma unidade imposta «contra outrem» e, implicitamente, em concorrência com ele, Deus; não corresponde ao motivo pelo qual ele criou os seres humanos. É por isso que ele decide opor-se ao seu projecto insensato. A sua preocupação em, mais uma vez, manter os homens no bom caminho, é recebida como um castigo. Cegos pelo seu aparente poder, os construtores da torre pensam que, ao dispersá-los, Deus está a actuar contra as suas aspirações. Na realidade, ele protege-os das consequências daquela ilusão. A impossibilidade de comunicarem uns com os outros terá um resultado positivo e paradoxal: Deus obriga-os a encher a Terra e a melhor desenvolver todas as suas virtudes.
Depois de um longo desvio, o desejo humano de unidade realiza-se de forma inesperada e mil vezes melhor: pelo milagre do Pentecostes (ver Actos 2) aparecerá uma unidade que, longe de ser uma uniformidade forçada, é uma comunhão na diversidade, guarda o que é válido em cada povo e em cada pessoa. Esta unidade não-violenta nunca pode ser conseguida pela acção do homem. Só pode ser recebida como uma oferta, como um dom realizado pelo Espírito de Deus, subindo das profundezas do ser humano. O projecto de Babel (ou da Babilónia, ver Apocalipse 17-18) torna-se o símbolo de todos os totalitarismos humanos. Representa a perseguição de uma eficácia que queima etapas e negligencia os tempos de amadurecimento necessários.
- Será que o progresso técnico e a procura da eficácia estão sempre em contradição com a escuta de Deus e a atenção aos outros? O que permite aliar estas duas áreas?
- Qual é a diferença entre uniformidade e unidade? Que exemplos conhecemos de uma vida comunitária que não aboliu a diversidade?
- De que forma é que o relato do Pentecostes (Actos 2) constitui a contraposição deste texto?

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